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19 março, 2014

Licença Poética

Na minha humilde opinião, só quem tem direito a licença poética é quem erra de propósito, conhecendo o erro e preferindo mantê-lo por conveniência de estilo. Defecar sobre uma gramática julgando que está pondo uma cereja num bolo não é licença poética, senão erro puro e simples, ou, na melhor das hipóteses, desleixo.

Há casos em que os erros gramaticais, além de não prejudicar a música, ainda são necessários para um ajuste de métrica e rima, ou mesmo para 
uma adequação à linguagem de quem fala (por exemplo, se o eu-lírico é uma pessoa sem instrução, não adianta usar vocabulário erudito, pois aí não combinaria).

Por outro lado, se os erros soam deselegantes ou prejudicam a interpretação, a experiência auditiva fica prejudicada. Principalmente se são erros injustificáveis.

Eis a motivação da postagem: https://www.youtube.com/watch?v=eVlvcgcHPTQ

 

Você, o Amor e Eu
(Carlinhos Brown)

Uma saudade de nós bateu
E o colchão desabou sem tempo
O coração disparou por dentro

Parei no seu movimento
Depois
Quase explodi por nós dois
Pra quê
A gente ficar de mau
Se dói, se dói
Quero aquecer, ter calor
Te ter
Sem águas que desaguou
Embora não sei

Quem de nós dois vai segurar nós três
Será que é ela, será que é o mundo

Haverão-verão-verão verões
Haverão-verão-verão verão nós
Haverão-verão-verão verões
Haverão-verão-verão verão

Se é amor verdadeiro
Tem chance
Por existir natural
Romance
Que o tempo não metralhou
Foi bom
Foi beijos que desarmou
Fiquei

Quem de nós dois vai segurar nós três
Será que é ela, será que é o mundo

Haverão-verão-verão verões
Haverão-verão-verão verão nós
Haverão-verão-verão verões
Haverão-verão-verão verão

Venha ver o sol
E o que é seu
E viver o mar
Também

Oromim má
Oromim má
Oromim má
Muito obrigado por você me amar
Muito obrigado por você me amar


(não é a fonte oficial, mas está disponível em:
https://www.letras.mus.br/carlinhos-brown/vc-o-amor-e-eu/)


Achei linda a música, desde a primeira vez em que a ouvi. De verdade. Porém, seus "erros" (e ressalte-se muito bem essas aspas!) não me passaram despercebidos. Vejamos:

"Sem águas que desaguou", por exemplo, ficou desengonçado. Esse verso só funcionaria se a gente for pensar que alguém desaguou essas águas (estaria Carlinhos se referindo ao pranto?), caso contrário, deveria ser "desaguaram". No caso dessa frase, bastaria só colocar "água" no singular e estaria tudo resolvido, qualquer que fosse o sentido empregado. O mesmo se diga do trecho "foi beijos que desarmou".

Igualmente desajeitada é a frase "haverão verões" (o verbo haver, em sentido de existir, é impessoal e deve ficar na terceira pessoa do singular "haverá verões"). Por melhor que seja o som do trocadilho com verões, o resultado é um erro crasso. E a parte "Embora não sei" não é lá muito melhor (deveria ser "embora não saiba").

Outra frase que me deixou confuso foi "Quem de nós dois vai segurar nós três?". Isso porque nada na letra indica quem é essa terceira pessoa a que Brown se refere. Ele deixou uma pista no título, podendo se tratar do amor, mas isso não me pareceu orgânico ao restante da letra. E também não sei o que o "mundo" tem a ver com o "quem de nós dois".

Não estou cobrando aqui uma erudição extrema (
a mistura errada entre os pronomes "tu" e "você", por exemplo, é irrelevante e não traz nenhum problema). No entanto, a concordância verbal faria algum mal a essa composição? Claro que não!

A letra, acredito eu, não é o mais importante de uma música. Brown nunca dependeu de um bom texto pra fazer uma música boa. Eu não consigo entender as letras de "Selva Branca" ou de "Uma Brasileira", mas isso não faz a menor falta nessas composições de Carlinhos Brown, pois a melodia delas supera a necessidade de qualquer lógica.

Contudo, erros gramaticais que fustigam os ouvidos estragam a experiência de curtir o som (pois é bem através dos ouvidos que entra a música). Imagina ouvir uma canção prestando atenção nos defeitos dela? Portanto, essa música se beneficiaria muito de pequenos ajustes.

Fora isso, a melodia da música é excelente. Pontos extras pela linda voz de Quésia Luz.

PS: Qualquer erro cometido no meu texto terá sido mera licença poética, tá?

30 dezembro, 2009

Música/Vídeo do dia

Vídeoclipe da música "Her Morning Elegance", do cantor israelense Oren Lavie.
Deve ser um dos melhores stop motions que eu já vi na vida:

http://www.youtube.com/watch?v=2_HXUhShhmY

10 agosto, 2009

Ainda Ontem

Charles Aznavour é um dos grandes nomes da música mundial. Se considerarmos apenas a França, certamente ele põe no bolso os seus colegas compatriotas, tanto pela interpretação quanto pela composição. Além de possuir uma poderosa voz de tenor, ele compôs cerca de 850 canções, muitas delas com versões em vários idiomas.

Uma das que eu mais aprecio é “Hier Encore”, de 1964, muito bela e triste. A letra registra as tolices de juventude e as esperanças perdidas na passagem veloz do tempo, enquanto a melodia triste acompanha tal amargura com adequação absoluta. Só quem viveu o suficiente como ele pode expressar-se tão bem sobre esse tema.

No vídeo abaixo, ele canta com duas mulheres (suas filhas, segundo o título no YouTube), numa interpretação belíssima dos três. (Será que são mesmo suas filhas? Como um sujeito feio gerou duas gatas como essas? Se for isso mesmo, por certo puxaram à mãe...)


http://www.youtube.com/watch?v=gkc9FWxBl2k

Como tio Márcio é muito bonzinho, entrega logo a letra e tradução no mole para todos os seus dois leitores (a tradução abaixo é ligeiramente diferente da legenda do vídeo, que não é das melhores).

Au revoir, mes chers amis!

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Hier Encore
Ainda Ontem

Hier encore, j'avais vingt ans
Ainda ontem, eu tinha vinte anos
Je carresais le temps et jouais de la vie
Acariciava o tempo e brincava de viver
Comme on joue de l'amour et je vivais la nuit
Como se brinca de amor e eu vivia a noite
Sans compter sur mes jours qui fuyaient dans le temps
Sem considerar meus dias que escorriam pelo tempo

J'ai fait tant de projet qui sont restés en l'air
Fiz tantos projetos que se dissiparam no ar
J'ai fondé tant d'espoirs qui se sont envolés
Alimentei tantas esperanças que se desvaneceram
Que je reste perdu ne sachant ou aller
Que permaneço perdido sem saber aonde ir
Les yeux cherchant le ciel, mais le coeur mis en terre
Os olhos vasculhando o Céu, mas o coração preso à Terra

Hier encore j'avais vingt ans
Ainda ontem eu tinha vinte anos
Je gaspillais le temps en croyant l'arrêter
Desperdiçava o tempo acreditando que o detinha
Et pour le retenir, même le devancer,
E para retê-lo, e até ultrapassá-lo,
Je n'ai fait que courrir et me suis essouflé
Não fiz outra coisa senão correr e acabar cansado

Ignorant le passé, conjuguant au futur
Ignorando o passado, conjeturando sobre o futuro
Je précédais de moi toute conversation
Eu direcionava a mim toda conversa
Et donnais mon avis que je voulais le bon
E opinava sobre o que eu achava ser bom
Pour critiquer le monde avec désinvolture
Por criticar o mundo com desenvoltura

Hier encore j'avais vingt ans
Ainda ontem eu tinha vinte anos
Mais j'ai perdu mon temps a faire des folies
Mas perdi meu tempo a cometer loucuras
Qui ne me laissent au fond rien de vraiment précis
O que não me deixa, no fundo, nada de realmente concreto
Que quelques rides au front et la peur de l'ennui
Exceto algumas rugas na fronte e o medo do tédio

Car mes amours sont mortes avant que d'exister
Porque meus amores morreram antes de existir
Mes amis sont partis et ne reviendront pas
Meus amigos partiram e não mais retornarão
Par ma faute j'ai fait le vide autour de moi
Por minha culpa criei o vazio ao meu redor
Et j'ai gâché ma vie et mes jeunes années
E gastei minha vida e meus anos de juventude

Du meilleur et du pire en jetant le meilleur
Do melhor e do pior, desprezando o melhor,
J'ai figé mes sourires et j'ai glacé mes pleurs
Imobilizei meus sorrisos e congelei meus prantos
Où sont-ils à present, à present, mes vingts ans?
Onde estão agora meus vinte anos?

14 abril, 2009

A velha disputa entre a aparência e a essência

No brilhante Luzes da Cidade, uma das muitas obras-primas de Chaplin, uma cega vendedora de flores toma o vagabundo como um homem rico e ele, apaixonado por ela, sustenta a farsa enquanto pode. O que o vagabundo não percebe é que ele não precisaria lançar mão desse expediente, uma vez que a garota gosta dele como de fato é, sendo rico ou não.

Estou falando tudo isso porque, muitas vezes, deveríamos perceber as pessoas sem o filtro preconceituoso que a visão nos oferece, algo muito bem abordado no Ensaio Sobre A Cegueira, de José Saramago.

Assim, minha reação ao assistir a este vídeo foi semelhante a de todos os presentes: descrédito. Trata-se do programa britânico Britain’s Got Talent, em que a Senhora Susan Boyle, de 47 anos, revela toda sua grandeza vocal após uma recepção cheia de deboche. Vale a pena conferir.

A velha disputa entre a aparência e a essência é uma guerra de duas etapas: primeiro, aquilo que parece é sempre vitorioso. Para que a essência vença, precisa de muito esforço para desfazer a primeira impressão. É bem verdade que a produção planejou tudo para que este contraste ficasse mais visível e impactante, mas isso não muda o fato de Susan "ser" muito mais do que "parece".


Clique na imagem para assistir