07 setembro, 2009

Patriotismo

Alguém já disse que "o nacionalismo é uma doença que se cura viajando". Concordo.
Sonhe com um Brasil independente neste dia sete...

04 setembro, 2009

Poema do dia



(Poema publicado antes
neste blog)

BIZARRO

Às vezes a natureza pinta formas tão bizarras,
que nunca ficariam bem se fossem pintadas pela mão humana.

Qualquer lagosta ou moréia é exemplo claro disso.

Um cachorro de costas, acho que ninguém saberia como desenhá-lo.

Um gole mal dado numa cerveja quente produz uma cara inimitável.

E assim também o insondável brilho dos olhos no primeiro beijo,
o riso incontrolável, que vence os lábios,
ou o insubordinado ato falho, que escapa da prisão inconsciente...

O latejar das veias de um terrorista e o suor que escorre do seu rosto tenso,
no momento de explodir, são o resultado de processos mentais intangíveis.

O olhar atônito sobre a Hiroxima atômica
só continuará nos olhos radioativos de quem a viu.

Ninguém saberia reproduzir o embaraço
de um cãozinho vigiando o cadáver podre de seu único dono.

Ninguém poderia experimentar o nó na garganta do homem-pássaro
que despencou do céu e se esborrachou no meio da rua sem pedir licença.

31 agosto, 2009

Pincel fotográfico

Não são todos os quadros que deixam evidentes a tinta e o pincel. Olhando a imagem abaixo, você diria se tratar de uma pintura? Não? Pois saiba que a arte que você está vendo não é fotografia, mas sim fruto das incríveis pinceladas da artista Alyssa Monks.

alyssia

Mais fotos... digo, pinturas, no portfolio da moça:

http://alyssamonks.com/port.asp


21 agosto, 2009

Aspas #2

Hoje um conto que eu adoro, de Luís Fernando Veríssimo:




Conto de verão nº 2: Bandeira Branca

Ele: tirolês. Ela: odalisca; Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.


Encontraram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.Só no terceiro Carnaval se falaram.

-Como é teu nome?

- Janice. E o teu?

- Píndaro.

- O quê?!

- Píndaro.

- Que nome!

Ele de legionário romano, ela de índia americana.

Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no Carnaval, a tia é que era sócia.

- Ah.

Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou na face, disse -Até o Carnaval que vem- e saiu correndo.

Divisor Horizontal Clássico

No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:

- Me dá alguma coisa.

- O quê?

- Qualquer coisa.

- O leque. O leque da bailarina.

Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.

No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que acontecera?

- Você vomitou a alma – disse a mãe.

Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais o cheiro dela.

Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube – e lá estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.

- Sei lá. Bávara tropical – disse ela, rindo.

Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.

- E aquela bailarina espanhola? – Nem me fala. E o toureiro? – Aposentado.

A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo, alguém disse - Píndaro?! - e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. O Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi -pelo menos o meu tirolês era autêntico- e desistiu. Mas, quando a banda começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo -não vale, você cresceu mais do que eu- e encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.

Divisor Horizontal Clássico

Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse -quase não reconheci você sem fantasias-. Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muito menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele lhe dissera fora - preciso te dizer uma coisa-, e ela dissera - no Carnaval que vem, no Carnaval que vem - e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara.

- O que você ia me dizer, no outro Carnaval? – perguntou ela.

– Esqueci – mentiu ele.

Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil- E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu.

(VERÍSSIMO, Luís Fernando. Conto de verão nº 2: bandeira branca. In: Os cem melhores contos brasileiros do século - Organização de Ítalo Moriconi. Objetiva, 2000.)

20 agosto, 2009

Terra

Esse nosso planetinha é cheio de beleza (se bem que nossa natureza humana enxergaria beleza qualquer que fosse a face da Terra).

Nos links abaixo, algumas singularidades de cair o queixo:

47 auroras
15 formações de água e gelo
15 formações de terra
12 formações e fenômenos do fogo e da luz

10 formações de nuvens e cores
10 desertos facinantes
17 fractais encontrados na natureza

Textos em inglês, mas só as imagens já enchem os olhos...

Dica da favorita Luiza Voll

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Updates:

- Nuvens Incríveis

- Cristais de gelo

- Vida nos corais

- Imagens da terra feitas por satélites

10 agosto, 2009

O antro da informção fácil

O post anterior me fez perceber quão duvidosa é a informação que existe na internet. Bem, que o conteúdo da internet não é confiável todos já sabíamos há muito tempo. Mas eu ainda não tinha me dado conta da dimensão do problema.

Sucedeu que eu pesquisei a letra da música “Hier Encore” e, embora não conheça francês, percebi imediatamente que o texto que encontrei não batia inteiramente com a sonoridade das palavras. Assim, “je voulais le bon” aparecia na letra “je pensais le bon”; e “pleurs” estava escrito “peurs”.

Então, obviamente, fui procurar em outras fontes antes de postar, mas qual não foi a minha surpresa ao constatar que 100% dos sites em língua portuguesa continham exatamente a mesma letra e a mesma tradução, incluindo os mesmos erros. Inseri “pleur” (palavra correta) na minha consulta e o Google retornou apenas uma página, em francês, de onde extraí o texto correto que postei.

Ficou claro que alguém certa vez publicou a letra e a tradução e estas foram copiadas ad infinitum pelos demais sites. Eis o problema: nem todos têm o cuidado de conferir a informação antes de passá-la adiante. Não é por outro motivo que circulam pela internet lendas urbanas e textos com a autoria incorreta.

Assim, se o fato ocorreu realmente ou se o texto é mesmo de Luís Fernando Veríssimo ou de Arnaldo Jabor, não importa, contanto que cause essa impressão. E na maior parte das vezes as pessoas crêem mesmo no que lêem, talvez por ingenuidade diante da nova mídia, ou por falta de reflexão.

Tal aberração se deve à facilidade do fluxo de dados numa época em que basta a conjunção das teclas “ctrl+c” e “ctrl+v” para trasladar informações, o que acarreta um mundo baseado muito mais em quantidade do que em qualidade. Assim, a informação contida na internet é muito fácil, mas igualmente fácil é a sua má qualidade.

Está ficando cada vez mais difícil separar o joio do trigo nesse ambiente tão vasto. Trata-se de uma “democracia” muito útil, mas de efeitos colaterais venenosos, uma vez que todos têm a palavra e dizem o que querem protegidos pelo manto do anonimato ou ancorados na pressa, na preguiça e na irresponsabilidade.

Por menos imparciais que sejam as informações das revistas e jornais da mídia impressa, nós pelo menos podemos confiar na sua veracidade até certo ponto, pois o que se costuma manipular é o colorido ou o grau de exposição, e não os fatos em si e sua real existência (falo exclusivamente de acontecimentos, e não do discurso político ou ideológico vertido nesses meios).

Não estamos longe da época em que tudo será previamente suspeito, pois nada estará fora da rede... Nesses tempos a propriedade intelectual será ainda mais abstrata e volátil. Caminhamos para uma era de supremacia da ficção em detrimento do fato, do plágio em detrimento da autoria, do adjetivo em detrimento do substantivo.

Não que a sociedade não possa se adaptar aos novos paradigmas. O perigo é que as mudanças têm sido mais rápidas do que a nossa capacidade de adaptação.

Ainda Ontem

Charles Aznavour é um dos grandes nomes da música mundial. Se considerarmos apenas a França, certamente ele põe no bolso os seus colegas compatriotas, tanto pela interpretação quanto pela composição. Além de possuir uma poderosa voz de tenor, ele compôs cerca de 850 canções, muitas delas com versões em vários idiomas.

Uma das que eu mais aprecio é “Hier Encore”, de 1964, muito bela e triste. A letra registra as tolices de juventude e as esperanças perdidas na passagem veloz do tempo, enquanto a melodia triste acompanha tal amargura com adequação absoluta. Só quem viveu o suficiente como ele pode expressar-se tão bem sobre esse tema.

No vídeo abaixo, ele canta com duas mulheres (suas filhas, segundo o título no YouTube), numa interpretação belíssima dos três. (Será que são mesmo suas filhas? Como um sujeito feio gerou duas gatas como essas? Se for isso mesmo, por certo puxaram à mãe...)


http://www.youtube.com/watch?v=gkc9FWxBl2k

Como tio Márcio é muito bonzinho, entrega logo a letra e tradução no mole para todos os seus dois leitores (a tradução abaixo é ligeiramente diferente da legenda do vídeo, que não é das melhores).

Au revoir, mes chers amis!

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Hier Encore
Ainda Ontem

Hier encore, j'avais vingt ans
Ainda ontem, eu tinha vinte anos
Je carresais le temps et jouais de la vie
Acariciava o tempo e brincava de viver
Comme on joue de l'amour et je vivais la nuit
Como se brinca de amor e eu vivia a noite
Sans compter sur mes jours qui fuyaient dans le temps
Sem considerar meus dias que escorriam pelo tempo

J'ai fait tant de projet qui sont restés en l'air
Fiz tantos projetos que se dissiparam no ar
J'ai fondé tant d'espoirs qui se sont envolés
Alimentei tantas esperanças que se desvaneceram
Que je reste perdu ne sachant ou aller
Que permaneço perdido sem saber aonde ir
Les yeux cherchant le ciel, mais le coeur mis en terre
Os olhos vasculhando o Céu, mas o coração preso à Terra

Hier encore j'avais vingt ans
Ainda ontem eu tinha vinte anos
Je gaspillais le temps en croyant l'arrêter
Desperdiçava o tempo acreditando que o detinha
Et pour le retenir, même le devancer,
E para retê-lo, e até ultrapassá-lo,
Je n'ai fait que courrir et me suis essouflé
Não fiz outra coisa senão correr e acabar cansado

Ignorant le passé, conjuguant au futur
Ignorando o passado, conjeturando sobre o futuro
Je précédais de moi toute conversation
Eu direcionava a mim toda conversa
Et donnais mon avis que je voulais le bon
E opinava sobre o que eu achava ser bom
Pour critiquer le monde avec désinvolture
Por criticar o mundo com desenvoltura

Hier encore j'avais vingt ans
Ainda ontem eu tinha vinte anos
Mais j'ai perdu mon temps a faire des folies
Mas perdi meu tempo a cometer loucuras
Qui ne me laissent au fond rien de vraiment précis
O que não me deixa, no fundo, nada de realmente concreto
Que quelques rides au front et la peur de l'ennui
Exceto algumas rugas na fronte e o medo do tédio

Car mes amours sont mortes avant que d'exister
Porque meus amores morreram antes de existir
Mes amis sont partis et ne reviendront pas
Meus amigos partiram e não mais retornarão
Par ma faute j'ai fait le vide autour de moi
Por minha culpa criei o vazio ao meu redor
Et j'ai gâché ma vie et mes jeunes années
E gastei minha vida e meus anos de juventude

Du meilleur et du pire en jetant le meilleur
Do melhor e do pior, desprezando o melhor,
J'ai figé mes sourires et j'ai glacé mes pleurs
Imobilizei meus sorrisos e congelei meus prantos
Où sont-ils à present, à present, mes vingts ans?
Onde estão agora meus vinte anos?

05 agosto, 2009

Poema do dia

Hoje, na verdade, são dois, de dois grandes poetas. É bom que se leia na ordem apresentada.

O adormecido do vale

(Arthur Rimbaud)

É um canto de verdura onde um riacho canta
Ligando loucamente às ervas farrapos baios
Ou de prata; onde o sol, da montanha que encanta,
Reluz: é um pequeno vale que espuma de raios.

Um soldado jovem, boca aberta, cabeça nua,
E a nuca que o fresco agrião azul envolve,
Dorme; sob uma nuvem, deitado na grama crua,
Pálido no seu leito verde onde a luz chove.

Os pés nas flores, ele dorme. Sorrindo como
Sorriria uma criança doente, está no sono:
Natureza, embala-o bem quente: ele tem frio.

Os perfumes não agitam suas narinas;
Ele dorme ao sol, a mão sobre o peito
Tranquilo. Tem dois buracos vermelhos no lado direito.

O menino da sua mãe
(Fernando Pessoa)

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
“O menino de sua mãe.”

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe

03 agosto, 2009

30 julho, 2009

Catálogo #3

“João que amava Maria, que amava José, que amava Antônio, que amava Ana, que amava Totó e Rex.” Exceto pela parte final da frase (eu não poderia deixar passar!), é essa a história do ousado Regras da atração (The rules of attraction, 2002, 110 min. Direção e roteiro de Roger Avary. Com: James Van Der Beek, Shannyn Sossamon e Ian Sommerhalder).

Baseado no livro do escritor Brett Easton Ellis (autor de Psicopata Americano, também adaptado para o cinema e altamente recomendado), o filme tem um enredo que, apesar de satirizar costumes com uma acidez corrosiva, se revela também bastante realístico ao retratar com fidelidade e honestidade seus personagens e suas atitudes. Estes não são pintados de maneira estereotipada nem têm seus defeitos amenizados, o que é uma grata surpresa para um filme vendido como “comédia dramática”.

A história se passa num campus universitário, onde estudam Sean, Lauren e Paul. Sean Bateman (James Van Der Beek, bem distante de Dawson’s Creek), ganha uns trocados extras vendendo drogas para os burgueses de sua faculdade, enquanto tenta evadir-se da dívida com seu irascível fornecedor. Ele passa a receber bilhetes de amor anônimos e logo imagina que estes vêm de Lauren Hynde (Shannyn Sossamon), por quem se apaixona rapidamente. Lauren se sente atraída por Sean, sim, mas fantasia perder a virgindade com seu suposto namorado quando este chegar de sua viagem à Europa. Quem acaba apaixonado por Sean mesmo é Paul Denton (Ian Somerhalder), um homossexual que não vem tendo muita sorte em suas conquistas.

“Um filme de arte para adolescentes”, é assim que o diretor Roger Avary (co-roteirista de Pulp Fiction, ao lado de Quentin Tarantino) define seu longa. A frase é muito feliz, pois tanto se trata de um filme de alta qualidade artística, quanto pode ser visto sem muitas reclamações pelos adolescentes (embora eu acredite que seja mais bem aproveitado por adultos).

Para ver o trailer, clique aqui (requer Real Player)

Por que você deve ver:
O filme conta com um roteiro mordaz e inteligente, com ótimas atuações e com a direção inventiva e vivaz de Roger Avary, que cria um longa visualmente rico e muito distante do convencional.
Por que você pode não gostar:
O filme trata de sexualidade e de desencontros nos relacionamentos. Por isso, é menos uma história de sucessos e mais um libelo sobre tentativas e fracassos. Além do mais, cenas de sexo podem repelir os mais pudicos, embora isso seja pouco relevante. Finalmente, embora a montagem seja um dos pontos altos do filme, ela pode deixar confusos os menos atentos.
Veja com atenção: a estrutura criativa das cenas e, em particular, uma sofisticada movimentação de câmera que acompanha Sean e Louren em telas divididas, para fundir as imagens em seguida.

Se ainda não viu, experimente!

29 julho, 2009

Música do dia

A poderosa música de B. B. King, o "Blues Boy King":

http://www.youtube.com/watch?v=Qtm66Z3lebc

The thrill is gone
A emoção se foi


The thrill is gone
A emoção se foi
The thrill is gone away
A emoção foi embora
The thrill is gone baby
A emoção se foi, baby
The thrill is gone away
A emoção foi embora
You know you done me wrong baby
Você sabe que me faz mal, baby
And youll be sorry someday
E você sentirá muito algum dia

The thrill is gone
A emoção se foi
Its gone away from me
Foi embora de mim
The thrill is gone baby
A emoção se foi, baby
The thrill is gone away from me
A emoção foi embora de mim
Although, Ill still live on
Eu ainda viverei
But so lonely Ill be
Mas tão solitário serei

The thrill is gone
A emoção se foi
Its gone away for good
Foi embora para o bem
The thrill is gone baby
A emoção se foi, baby
Its gone away for good
Foi embora para o bem
Someday I know Ill be open armed baby
Algum dia eu sei que eu estarei de braços abertos
Just like I know a good man should
Assim como um bom homem deveria estar

You know Im free, free now baby
Você sabe que eu estou livre, livre agora, baby
Im free from your spell
Eu estou livre de seu feitiço
Oh Im free, free, free now
Oh, eu estou livre, livre, livre agora
Im free from your spell
Eu estou livre de seu feitiço
And now that its all over
E agora está tudo acabado
All I can do is wish you well
Tudo que eu posso fazer é desejar o seu bem

15 julho, 2009

Mau Gosto #2

Quando postei sobre "mau gosto", eu suspeitei que isso poderia virar outra categoria do blog, já que exemplares do gênero não faltam (assim como as mentes grandiosas que os criam).

Veja que excelente designer concebeu essa pérola para um restaurante japonês:












Eu já não gosto de comida japonesa, com um logotipo desses então, não passo nem na porta!
(O problema nem é com o "sol" vermelho, mas com a "casa" amarela, se é que vocês me entendem...)

08 julho, 2009

Aspas #1

Hoje eu inauguro aqui a seção “Aspas”, na qual trarei textos que considero bons e cujos autores invejo por não os ter escrito. Já que Deus não me agraciou com o dom de escrever como eles, ao menos me deu a capacidade de perceber suas qualidades.

Os maledicentes podem achar que eu criei essa seção para me livrar do fardo de produzir textos novos, bastando escolher e colar o texto dos outros. Mas os meus amigos, os que realmente me conhecem... Bem, eles terão certeza disso!

Começo com um belo texto de Rubem Alves.


Deus existe?


De vez em quando alguém me pergunta se eu acredito em Deus. E eu fico mudo, sem dar resposta, porque qualquer resposta que desse seria mal entendida. O problema está nesse verbo simples, cujo sentido todo mundo pensa entender: acreditar. Mesmo sem estar vendo, eu acredito que existe uma montanha chamada Himalaia, e acredito na estrela Alfa Centauro, e acredito que dentro do armário há uma réstia de cebolas... Se eu respondesse à pergunta dizendo que acredito em Deus, eu o estaria colocando no mesmo rol em que estão a montanha, a estrela, a cebola, uma coisa entre outras, não importando que seja a maior de todas.

Era assim que Casemiro de Abreu acreditava em Deus, e todo mundo decorou e recitou o seu poema teológico: Eu me lembro... Era pequeno... O mar bramia, e erguendo o dorso altivo sacudia a branca espuma para o céu sereno. E eu disse à minha mãe naquele instante: “Que dura orquestra! Que furor insano! Que pode haver maior que o oceano ou mais forte que o vento?” Minha mãe a sorrir olhou para os céus e respondeu: “Um Ser que nós não vemos! E maior que o mar que nós tememos, é mais forte que o tufão, meu filho: é Deus!”

Ritmos e rimas são perigosos porque, com freqüência, nos levam a misturar razões ruins com música ruim. Deixados de lado o ritmo e as rimas, o argumento do poeta se reduz a isso: Deus é uma “coisona” que sopra qual ventania enorme, e um marzão que dá muito mais medo que esse mar que está ai. Ora, admito até que coisona tal possa existir. Mas não há argumento que me faça amá-la. Pelo contrário, o que realmente desejo é vê-la bem longe de mim! Quem é que gostaria de viver no meio da ventania navegando num mar terrível? Eu não...

É preciso, de uma vez por todas, compreender que acreditar em Deus não vale um tostão furado. Não, não fiquem bravos comigo. Fiquem bravos com o apóstolo Tiago, que deixou escrito em sua epístola sagrada: Tu acreditas que há um Deus. Fazes muito bem. Os demônios também acreditam. E estremecem ao ouvir o Seu nome... (Tiago 2,19). Em resumo, o apóstolo está dizendo que os demônios estão melhor do que nós porque, além de acreditar, estremecem... Você estremece ao ouvir o nome de Deus? Duvido. Se estremecesse, não o repetiria tanto, por medo de contrair malária...

Enquanto escrevo, estou ouvindo a Sonata Appassionata, de Beethoven, a mesma que Lenin poderia ouvir o dia inteiro, sem se cansar, e o seu efeito era tal que ele tinha medo de ser magicamente transformado em alegria e amor, sentimentos incompatíveis com as necessidades revolucionárias (o que explica as razões por que ativistas políticos geralmente não se dão bem com música clássica). Se eu pudesse conversar com o meu cachorro e lhe perguntasse: Você acredita na “Appassionata”? – ele me responderia: Pois é claro. Acha que eu sou surdo? Estou ouvindo. E, por sinal, esse barulho está perturbando o meu sono.

Mas eu, ao contrário do meu cachorro, tive vontade de chorar por causa da beleza. A beleza tomou conta do meu corpo, que ficou arrepiado: a beleza se fez carne.

Mas eu sei que a sonata tem uma existência efêmera. Dentro de poucos minutos só haverá o silêncio. Ela viverá em mim como memória. Assim é a forma de existência dos objetos de amor: não como a montanha, a estrela, a cebola, mas como saudade. E eu, então, pensarei que é preciso tomar providências para que a sonata ressuscite de sua morte...

Leio e releio os poemas de Cecília Meireles. Por que releio, se já os li? Por que releio, se sei, de cor, as palavras que vou ler? Porque a alma não se cansa da beleza. Beleza é aquilo que faz o corpo tremer. Há cenas que ela descrever que, eu sei, existirão eternamente. Ou, inversamente, porque existiam eternamente, ela as escreveu. O crepúsculo é este sossego do céu / com suas nuvens paralelas / e uma última cor penetrando nas árvores / até os pássaros. / E esta curva de pombos, rente aos telhados, / e este cantar de galos e rolas, muito longe; / e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas, / ainda servi luz.

Que existência frágil tem um poema, mais frágil que a montanha, a estrela, a cebola. Poemas são meras palavras, que dependem de que alguém as escreva, leia, recite. No entanto, as palavras fazem com o meu corpo aquilo que universo inteiro não pode fazer.

Fui jantar com um rico empresário, que acredita em Deus, mas me disse não compreender as razões por que puseram o retrato da Cecília Meireles, uma mulher velha e feia, numa cédula do nosso dinheiro. Melhor teria sido retrato da Xuxa. Do ponto de vista da existência ele estava certo. A Xuxa tem mais realidade que a Cecília. Ela tem uma densidade imagética e monetária que a Cecília não tem e nunca quis ter. A Cecília é um ser etéreo, semelhante às nuvens do crepúsculo, à espuma do mar, ao vôo dos pássaros. E, no entanto, eu sei que os seus poemas viverão eternamente. Porque são belos.

A Beleza é entidade volátil – toca a pele e rápido se vai.

Pois isso a que nos referimos pelo nome de Deus é assim mesmo: um grande, enorme Vazio, que contém toda a Beleza do universo. Se o vaso não fosse vazio, nele não se plantariam as flores. Se o copo não fosse vazio, com ele não se beberia água. Se a boca não fosse vazia, com ela não se comeria o fruto. Se o útero não fosse vazio, nele não cresceria a vida. Se o céu não fosse vazio, nele não voariam os pássaros, nem as nuvens, nem as pipas...

E assim, me atrevendo a usar a ontologia de Riobaldo, eu posso dizer que Deus tem de existir. Tem Beleza demais no universo, e Beleza não pode ser perdida. E Deus é esse Vazio sem fim, gamela infinita, que pelo universo vai colhendo e ajuntando toda a Beleza que há, garantindo que nada se perderá, dizendo que tudo o que se amou e se perdeu haverá de voltar, se repetirá de novo. Deus existe para tranqüilizar a saudade.

Posso então responder à pergunta que me fizeram. É claro que acredito em Deus, do jeito como acredito nas cores do crepúsculo, do jeito como acre dito no perfume da murta, do jeito como acredito na beleza da sonata, do jeito como acredito na alegria da criança que brinca, do jeito como acredito na beleza do olhar que me contempla em silêncio. Tudo tão frágil, tão inexistente, mas me faz chorar. E se me faz chorar, é sagrado. É um pedaço de Deus... Dizia o poeta Valéry: Que seria de nós sem o socorro daquilo que não existe?

(Alves, Rubem. Teologia do Cotidiano. Olho D’Água)

07 julho, 2009

Mau Gosto

Gosto é como cotovelo, cada qual tem o seu. Desse modo, delimitar a margem a partir da qual certa coisa pode ser considerada de bom ou de mau gosto não é apenas difícil, mas até incorreto, uma vez que a subjetividade é senhora dessas questões.

No entanto, nós humanos não teríamos chegado até aqui se, apesar de tudo, não fosse possível estabelecer, com algum acerto, parâmetros gerais de bom senso.

O que se passou na mente do sujeito que criou este brinquedo nós nunca saberemos, mas o certo é que boa parcela da humanidade reconhecerá que isto foi um desastre:



http://www.youtube.com/watch?v=ggy50aunhmU

Destaque para a música do Queen, "tocada" de maneira hilária!

Update:
Descobri outro escorregador fantástico. Reclamaram do anterior, então fizeram um novo, mais "adequado". Saiu este, modelo "elefantinho de hemorróidas" (alguns também batizaram de "elefanta no cio"):